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ancho” pode ser local, pode ser grupo de pessoas, pode ser alimento. O título da canção exprime uma síntese de todos esses significados. Belém do Pará, portal da Amazônia brasileira, é aqui vista como um “pedaço” expressivo (e simbólico) da América Latina: sua história de exploração colonial, de massacre étnico, de dominação cultural; mas, ao mesmo tempo (e ao reverso), um repositório de vida e de intangíveis valores humanos, lapidados pelo sofrimento e pela perseverança, capazes fermentar a esperança (escatológica) na libertação final de toda a humanidade.

Eis a “verdura” do sonho declinado nos versos, que corre, escondido, nas “veias” dos povos subjugados; e que se manifesta refletido, metaforicamente, nos túneis de mangueiras que margeiam as ruas da capital paraense (As Ruas de Belém), transformando-as, ao olhar do poeta, em “rios” que deságuam no mar da esperança e da ressureição da vida, apesar de todos os obstáculos de percurso.

Tal qual um “rancho”, Belém é local (periferia do mundo “civilizado”); é gente (o índio, o escravo, o marginalizado); mas, também, é alimento: canto, brio, raça, criação. É uma síntese singular da América Latina. Uma parte do todo e o todo na parte – em que os “azuis” azulejados de ar lusitano relembram as mesmas dores entranhadas nas histórias sofridas de todos os povos do continente.

É dessa “madrugada” de “longo penar” que, paradoxalmente, brota a energia possível do recomeço, do renascimento, da retomada da luta pela libertação, plasmada por um “Homem de Dores” que, simbolizado na figura de um Deus crucificado, confere significação a toda sorte de martírio – e esperança de ressurreição!

É somente nesse diapasão que se torna possível cantar “Latino-américa” – e anunciar, profeticamente, como alforria, no porvir – por que não?! –, uma venturosa e libertária “crioulização” do mundo.

AS RUAS DE BELEMAlex, Edison, Edilberto, Evandro, Miguel Ângelo e Rilson Cruz
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Música: Edilberto Barreiros

Letra: Heleno de Oliveira