Sta. Clara de BuiqueChico Parobé
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UM CERTO HELENO

Emanuel Matos

HELENO AFFONSO DE OLIVEIRA PINTO chegou em Belém com a aura de primeiro focolarino brasileiro. O primeiro homem no Brasil a declarar-se integralmente consagrado ao "Ideal da Unidade" entre os homens, assim como anunciava Chiara Lubich – e, por isso mesmo, o seu primogênito brasileiro.

 

Nascera em Santa Clara de Buíque, interior de Pernambuco; mas chegara em Belém vindo do Recife, terra pela qual derramava-se de legítimo amor – afinal, não há como negar o vigor da cultura pernambucana.

 

Mas Heleno era também um homem culto e um humanista. Amava a CULTURA, em suas múltiplas manifestações; o BELO, a BELEZA onde quer que a encontrasse.

 

Profundo conhecedor da literatura universal, Heleno sabia onde (e como), nesse universo, identificar a universalidade da cultura brasileira e, particularmente, da poesia nativa. Não havia poeta no Brasil sobre o qual ele não fosse capaz de discorrer. E se deliciava, igualmente, com a poesia latino-americana: Borges e Nicanor Parra costumava recitar de pronto.

 

Nutria grande admiração e afeição por vários poetas brasileiros; mas sempre o via emocionar-se lendo Jorge de Lima e Murilo Mendes.

 

Mestre em Literatura Brasileira, Heleno faleceu (aos 55 anos) no curso de seu Doutorado (em Lisboa), quando finalizava uma tese sobre outra de suas predileções estéticas: a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

A sua relação com a cultura popular do “Brasil profundo” o conduziu, desde cedo, a um de seus maiores fascínios, cultivado durante toda a sua vida e marca destacada de sua personalidade: a música popular brasileira.

 

O tempo ia passando e, aos poucos, Heleno foi se revelando, além de grande formador de jovens nessa enorme Amazônia, um grande compositor, um grande poeta (e, mesmo, teatrólogo), com uma vasta e diversificada obra, admirada no Brasil e, depois, na Itália e em Portugal (países onde viveu os últimos anos de sua trajetória) – tendo merecido o prefácio em algumas de suas publicações (póstumas) de ninguém menos que a própria Sophia, como n’ As Sombras de Olinda  e  Oropa, França e Bahia.

 

Além de mim, um imenso número de jovens, Amazônia adentro e afora (e mesmo além-mar), devemos a Heleno a melhor parte de nossa formação e de nossa visão cristã e humanista de mundo.

 

A todos nós, Heleno legou aquilo que era o seu dom mais precioso, o seu maior tesouro, a sua secreta e grande paixão: a luz do carisma do Ideal de Chiara Lubich (o seu paraíso interior) – pelo qual viveu e dedicou toda a sua vida.

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Quatro coisas sobre Heleno que eu nunca disse

Giovanni Avogadri

“A poesia de Heleno é um mundo simultaneamente uno e múltiplo. É simultaneamente um caminho e o diário desse caminho. É uma busca espiritual que passa através de uma busca intelectual. É caminho e é encruzilhada. A sua poesia é escrita entre a luz e a escuridão; entre peso e graça. Entre o esplendor múltiplo da terra e o escândalo do mundo. Entre a beleza que o homem criou e a dor, o abuso e a opressão."

(Sophia de Mello B. Andresen, Prefácio à coletânea As sombras de Olinda. Editora Caminho. Lisboa, 1997).

Os amigos de Heleno, de Belém do Pará, pediram-me uma contribuição à reconstituição de sua história de artistas e de grupo. Heleno morreu há 25 anos e, com estes rabiscos, declaro desde logo que não falarei como "amigo", tampouco como "testemunha" – algo que fiz por muitos anos, de forma estritamente profissional, como crítico (fique claro!) –, preferindo, aqui, deixar falar a [própria] poesia de Heleno e as pessoas que encontraram aquele "caminho e o diário desse caminho" que, segundo [a poetisa portuguesa] Sophia de Mello, é a poesia de Heleno.

 

Vinte e cinco anos desde a morte de Heleno de Oliveira. Não apenas – como se diz – “muito tempo se passou”, mas passaram-se muitos tempos, estações, conjunturas e percepções diversas do mundo. Um Papa latino-americano sentou-se na cátedra de Pedro. Realizou-se um Sínodo sobre a Amazônia. E a maioria dos brasileiros elegeu aquele que parece ser um neto enlouquecido dos militares da época da ditadura, mas que, na verdade, mira para Trump e para a direita supremacista e fundamentalista. A “necropolítica” parece ter substituído as esperanças daquele século XX antes do fim do qual Heleno partiu para a sua viagem derradeira.

 

Passou o tempo do seu "caso literário", o desconhecido poeta brasileiro descoberto e publicado por seu próprio mito poético, Sophia de Mello Breyner Andresen, por certo a voz mais alta da poesia lusitana.

 

Passou o tempo do ingresso de Heleno no cânon da literatura luso-brasileira, por mérito da grandíssima Luciana Stegagno Picchio, acadêmica brasileira e professora de, pelo menos, duas gerações de lusitanistas italianos e europeus.

 

Passou o tempo da entrada de Heleno na literatura italiana, com a coletânea Se Fosse Verdadeira a Noite, inteiramente de textos escritos no idioma itálico, auto traduzidos do português ou compostos diretamente na língua “Del bel paese là dove il sì suona” (Dante).

 

Um “detalhe” real e dramático unifica esses diferentes tempos nos quais a obra de Heleno foi recebida: as traduções, as publicações, os estudos críticos foram todos póstumos. “A luz da escrita”, como escrevia Heleno, sobreviveu à trajetória dramática do homem, ao seu exílio, em parte voluntário, em parte repentino; à dificuldade em vida de assumir-se como poeta, confiando a nós, amigos florentinos e não, o seu legado de livros e escritos para que, de alguma forma, o salvássemos de uma segunda morte.

Quando Heleno partiu para Portugal, no início do verão de 1995, havia-nos confiado manuscritos, cadernos, poesias, fotos e cartões postais (poucos) com o tom de quem sabia não mais voltar. Eu não levei a sério aquela tonalidade que, não obstante, é tão clara em toda a sua poesia, tecida, nutrida – direi –, criada pela dor, pelo sentido de uma existência não realizada.

 

Verão 1984

 

Luis Felipe

Parece dizer-me

Neste quarto escuro:

“me resta a palavra”.

A palavra prenha do Verbo

no coração de cada poeta

negador

filho pródigo

fugitivo.

Eu, ao invés, não a carrego

nas mãos vazias

no orfanato

de pai mãe

filhos campos.

A morte se descura

surrealista

com facas e recordações

de Buñuel:

massacra-me assim

em meio a eles

ao seu Cristo

demasiadamente para o bem

para ser verdade.

Minha palavra quebrada

me lembra

o eco da Palavra

e emudecido

rezo:

“Jesus reduzido a nada”

Dá-me um pouco de lágrimas

para aguardar a condenação.

Ensina-me

a arte do palhaço

para gaguejar risadas

na não-espontaneidade

absoluta

e na insegurança

do vazio

dos mitos mortos

e profanados.

Olha-me

não há mais apoios

a pátria está vendida

e morre lentamente,

a Igreja que amo

parece reticente e retórica,

o trabalho que realizava

agora é uma máquina

que caminha

sem a tua pegada.

 

Eu só tenho o sofrimento

o desespero

de não querer dizer

um outro sim.

Não o quero.

Não.

Não.

 

Espírito de amor

te ofereço este não

redondo como uma maçã

para que o conduzas

rente ao Abandono

do Filho.

É sangue.

É sangue.

Isso é o que me cobre.

Da minha boca

surge o meu inferno.

Segura-o Tu.

 

Como pode ser observado por este texto inédito, tão explícito, escrito na língua do exílio, Heleno nunca foi um resignado. Foi um “nordestino valente”, como a ele se refere a sua amiga Vera Araújo; e com a sua coragem lá derramou os seus muitos conflitos abertos e dilacerantes em forma de arte, conto, poesia: modelou uma “identidade amante e narrativa” – referindo-se a Marsilio Ficino, poeta e teólogo, doutor da alma na Florença do Magnífico Lorenzo,“gobbo e malinconico”, dizem os biógrafos.

 

Esse é o dado de fato: a morte não conseguiu destruir a sua voz; a sua viagem continuou através das pessoas mais ou menos famosas, normais como nós ou extraordinárias como Sophia De Mello, Luciana Stegagno Picchio, Armindo Trevisan, algumas das quais – salvo Armindo, seu amigo e colega na PUC de Porto Alegre – o conheceram muito pouco, quase de passagem, assumindo, após a sua morte, o compromisso de fazer continuar aquela viagem múltipla e fascinante entre os mundos que ele cruzou e amou: Brasil, Florença, Portugal, Itália.

E chegamos ao hoje. Qual futuro? Qual compromisso e visão se nos remete?

Não quero dizê-lo eu, mas prefiro fazer falar Joana Bosak de Figueiredo, num seu artigo de alguns anos atrás:

“O corpo pesa ausências.

O olhar esquece histórias.

Não é Olinda, é o país perdido.

Fruto amanhã e madrugada.

Casas pardas e cacimbas.

Vilas vagas de uma só rua.

Sertão de soco e lágrima.

 

Porque li Jorge de Lima

Fui a Maceió num trem da Great-Western.

 

Um dia irei escavar sementes.

Sonhar a volta.

 

Um imenso cemitério

Sem túmulo, floresta, história.

 

Aqui e acolá folhas da ressureição.”

(Oropa, França e Bahia)

 

Não houve a volta física, mas, sim, as sementes que foram jogadas. Da cartografia sentimental de Heleno queremos recuperar um pouco dessa “transformação quase mítica da origem”, que “é um dos elementos mais peculiares da experiência do exílio”; um “exílio lingüístico”, como diz Prisca Agustoni, em ensaio sobre Murilo Mendes (2005). Agustoni segue, agora, citando Mia Lecomte, no posfácio a Hipóteses, de Murilo Mendes, o segundo livro da coleção Cittadini della poesia:

“A migração, voluntária ou necessária,

comporta um longo percurso atravessando todos os

sentidos de uma língua, e em alguns casos expatriar-

se é exatamente o meio pelo qual visitar todos os

aspectos da língua e da própria existência”.

Com certeza, a expatriação voluntária de Heleno Oliveira, que se configurou em um exílio linguístico – já que o autor passa a escrever também em italiano –, trouxe-o de volta à sua raiz lusa. No encontro com a obra de Sophia, Heleno tornou-se ainda mais planetário, embora voltando a escrever em sua língua nativa, fazendo o que tanto buscava: uma origem.

Penso que Armando Gnisci nos oferece uma bela interpretação às questões relacionadas aos autores interculturais, como Heleno. Para Gnisci, em Migração e Literatura:

“O destino atual da literatura dos mundos consiste

na consciência de estar em transição e tradução;

como sempre esteve, aliás. ‘Estar em transição’

corresponde tanto à consciência poético-literária ou

à dimensão do tempo por ela invocada. Esse conceito

nos convence, tendo sido apenas pronunciado,

a pensar, ao mesmo tempo, que estar no mundo é

um ‘estar entre’, um ‘entre-ser’. Assim como Pessoa

e Kafka, por exemplo, fizeram com a sua época,

permitindo uma ‘ausculta’ verdadeira de suas vozes.”

(Gnisci, 2003, p. 2 - 3)

 

Ao pensar numa necessária “crioulização” da Europa, a fim de que distorções culturais gigantescas e seculares sejam finalmente mais bem compreendidas, sem falsos eurocentrismos, Gnisci nos traz um conceito fundamental para pensarmos o papel de Heleno Oliveira em seu “exílio lingüístico”. Da “crioulização” que Heleno faz do italiano e da literatura que produz na Europa como tradução desse seu “estar entre” tantos mundos poéticos, poderíamos ainda agregar o impacto que essa “crioulização” teve na obra da própria Sophia, quem, de lida, passou a leitora de Heleno, recompondo, mesmo, os seus itinerários poéticos após esse encontro.

 

Heleno foi um leitor fundamental de Sophia, ao qual ela retribuiu a força da leitura e de sua obra poética por meio da publicação e divulgação do poeta precocemente falecido, agindo na sua própria escritura. Entre os últimos trabalhos de Sophia, está justamente a antologia de Heleno – As Sombras de Olinda –, que ela selecionou e fez publicar.

Se não houve tempo suficiente para a musa helênica se “crioulizar”, como diria Armando Gnisci, ao menos o escritor migrante, poeta cidadão do mundo que foi Heleno, pôde ser resgatado daquele lado do Atlântico. Urge, hoje, que se faça o mesmo do lado de cá, para que, finalmente, Oropa, França e Bahia não seja apenas o título de um livro bilíngue publicado na Itália, há seis anos, pela maior especialista em Literatura Portuguesa da história daquele país.

Este artigo tenta ser uma parte ínfima do início desse itinerário poético, em cotejo: do Mar de Sophia a Oropa, França e Bahia, de Heleno, um espaço intertextual sem fronteiras.

Um agradecimento de coração e um abraço bem brasileiro aos amigos de Belém!

Giovanni Avogadri

P.S. O projeto editorial da publicação da obra poética de Heleno de Oliveira, no Brasil, iniciou com o trabalho de Ricardo Zugno, Jaime Luccas e deste escritor.

HELENO DE OLIVEIRA

Coletâneas publicadas:

Clarindo, Clarindo. Universidade Federal do Pará. Belém, 1992.

As Sombras de Olinda. Editora Caminho. Lisboa, 1997.

Se Fosse Verdadeira a Noite. Colar "Cidadãos da Poesia" Zona Editorial. Roma, 2003.

Oropa, França e Bahia. Edições do Meridiana. Florença, 2004.

Antologias e estudos críticos:

Antologia da poesia portuguesa e brasileira, editada por Luciana Stegagno Picchio. Education S.P.A. L'Espresso Editorial Group. Florença, 2004.

Nas fronteiras do verso, poesia da migração na Itália, editada por Mia Lecomte. Le Lettere. Florença, 2006.

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"(...) Tenho necessidade, de vez em quando, que o papel me diga. A luta ainda é árdua. E o centro da alma não é uma minha possessão.

(...) Mais uma vez, vejo que a nossa experiência não foi perdida. Saúda Belém por mim. Eu a tenho muito presente.

(...) É incrível como a Amazônia se enraizou no meu peito. Dá um abraço ao calor, ao cheiro, às mangueiras, à dor do povo e, especialmente, aos meus amigos e irmãos daí.

(...) Espero, depois, dar um pulo no Brasil e, se for possível, ir a Belém.

Um abração.

Excerto de carta de Heleno a Alex (Florença, 02 de janeiro de 1986)