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Edilberto Barreiros

E

stávamos no início dos anos 1970 e o rock fervilhava. Só se falava desse ritmo contagiante. Eu tocava guitarra desde 1964 e curtia Beatles, Rolling Stones, Santana, Jimi Hendrix, Pink Floyd, The Who, Creedence, Queen, Yes. Quando tinha de acompanhar os pais e irmãos, eu devia saber tocar Dolores Duran, Noel Rosa, Orlando Silva, Pixinguinha. Meus amigos da rua, à sua vez, me pediam Tom Jobim, João Gilberto, Baden Pawell, Carlos Lira, Roberto Menescal. Já os colegas da escola preferiam ouvir Roberto Carlos, Jerry Adriani, Os Vips, Os Incríveis, Renato e Seus Blues Caps... Que anos “difíceis” para ser músico (rs)!

Em 1973 conheci um sujeito gordo, um tanto exótico. Falava grosso, sempre suado. Dizia coisas “bonitas” que eu não entendia nada. Um dia, pediu-me pra acompanhá-lo no violão; e aí, para desafiar ainda mais os meus limites (e diferente de todo o resto), vem com Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Milton Nascimento, Chico Buarque... Era demais pra mim!

O Emanuel Matos (Manu), um grande amigo e colega de sala da mesma escola, desde o ginásio (hoje, ensino Fundamental), já há anos sem vê-lo, voltei a encontrá-lo justamente ali, com aquele estranho grupo e com aquele gordo exótico (Heleno de Oliveira) – para a minha surpresa! Foi quando ele e o Alex (que eu acabara de conhecer na turma) me falaram de um show que deveriam realizar dentro de vinte dias, no interior de uma capela (N. Sra. de Lourdes) – o que, também, soava-me estranho!

O Que Fizeram do Natal era o nome do espetáculo que deveriam apresentar – e para o qual fui logo convidado a participar. Pela primeira vez na vida, tive de passar vinte dias ensinando o que sabia de organização de banda, pois já participara de vários conjuntos em Belém, tocando profissionalmente nas noites.

Os Gen instrumentistas do Conjunto GEN SINCO não tocavam bem; não tinham boa harmonia e não sabiam como obter o acompanhamento de uma canção ouvida diretamente de um LP (disco em vinil). Assim, transportei alguns arranjos, consertei outros e, no show, acabei executando algumas músicas, pois não houve tempo para que eles as aprendessem.

Heleno sabia dirigir o espetáculo, tendo eu ficado admirado com essa sua capacidade e versatilidade, pois dançava, pulava e, até, gritava (se necessário) quando seus “pupilos” não entendiam ou não acompanhavam, à altura, as suas orientações.    

Em uma cena que ele estava ensinando ao grupo, um jovem deveria ficar no centro do palco, com sete fitas amarradas na cabeça, seguras por sete pessoas, que deveriam girar em seu entorno. Mas como somente ele, Heleno, conseguia alcançar o desempenho almejado, sugeri-lhe que ele próprio desempenhasse, então, tal papel – evitando, assim, tanto desgaste inútil e perda de tempo com aqueles jovens amadores. E não é que foi um sucesso! Acompanhei-o no violão, com os batuques de umbanda, enquanto ele dançava como estivesse em transe. E era tal a sua entrega à cena, que cheguei até a duvidar se o transe não fora, mesmo, verdadeiro (rs)! Depois disso, o que não faltaram foram críticas de espectadores perplexos com o episódio, incomum para um ambiente católico.

Para mim, o show foi uma meditação. O contato com os jovens daquele grupo era diferente e eu jamais tinha conhecido pessoas assim. Eu me perguntava: quem era esse Jesus que eles falam com tanta intimidade? Tinha aprendido que Ele só estava ali pendurado numa cruz e pronto! Esse “papo” de que Jesus estava no meu irmão e que fazia parte da minha história e que poderia estar no nosso meio... era muito difícil pra mim.

Como consequência, acabei fazendo a Primeira Comunhão com 21 anos de idade, na véspera do Natal, com a presença de toda a minha família e de Ângela, minha namorada – todos surpresos com a decisão. Comecei a colocar em prática cada palavra do Evangelho (a que chamavam de “Ideal”) e a proceder uma total mudança de vida, a começar da relação com a minha namorada (tal como eu, já integrada ao grupo), com quem aprendi a rezar e a procurar ver com olhos novos cada irmão.

Pouco a pouco, desde então, foram nascendo muitas canções, em parceria. Sempre curioso, ia perguntando tudo sobre aquelas letras (que “aspiravam”, por mim, ser musicadas); e Heleno explicava com paciência cada uma, abrindo-me o horizonte e a visão de mundo. A primeira foi Jesus Cristo onda Hippie; depois, Marcha de um Encontro de Carnaval. Eu colocava música em frases do Evangelho, em textos de Chiara Lubich (fundadora do Movimento que inspirava aquela comunidade), em poemas de poetas brasileiros... Compunha samba, bossa-nova, bolero, frevo, marcha, rock, ciranda, baião, xote, baladas, fados, enfim, o que fosse necessário para contribuir com as peças teatrais dos nossos espetáculos.

Eu e Ângela casamos em 06 de dezembro de 1975. E foi Heleno quem escreveu as palavras inscritas no convite de casamento: “Entendemos que o amor que vive em nós, sem o Dele, não é, deixa de ser, e pode transformar-se em lembranças e esvaziar-se. Ah! Como foi bom ter entendido o amor assim e assim ter chegado ao dia de hoje...”.

 

A canção que fizemos para o casamento intitula-se Canção para Dois Que São Um, a qual tem uma estrofe que diz: “A nossa vida sobre a pedra/ Que o mundo inteiro rejeitou/ Nem mesmo os ventos e a procela/ Hão de apagar o nosso amor”– e assim foi!

Heleno (que era pernambucano) tinha um amor especial por Belém; e um dia me apresentou um texto que falava das “Ruas de Belém”. Mostrei a ele, então, uma melodia que havia composto fazia poucos dias, e rapidamente conseguimos encaixar o texto à canção. Nasceu, assim, Rancho Americano, que desvela uma Belém repleta de mangueiras, em seu ar lusitano, por onde se caminha sob túneis verdes e se viaja pelas dores de uma América Latina há séculos colonizada e explorada, de culturas destruídas e espoliadas, de índios exterminados – mas que será, um dia, libertada de seus grilhões por um “Homem de Dores”, que carrega a redenção de toda a humanidade.